Para um tipo muito especial de neurônios, parece que a vida de fato começa aos 40. Ou pelo menos aos 30 dias de vida de um camundongo, o que, do ponto de vista do desenvolvimento celular, é praticamente a mesma coisa. Contrariando um dos dogmas da neurobiologia, um pesquisador brasileiro flagrou esses neurônios já “idosos” se dividindo adoidado, como se ainda fossem células juvenis. “Sim, é verdade, um neurônio com prolongamentos e sinapses [conexões com outros neurônios] está se dividindo”, resumiu o biólogo carioca Rodrigo Martins ao apresentar seus achados diante de uma platéia de colegas na XXII Reunião da Fesbe (Federação de Sociedades de Biologia Experimental). Martins também mostrou que a síndrome de Peter Pan dos neurônios de meia-idade leva ao surgimento de um tumor muito agressivo nos camundongos. Na verdade, portanto, o trabalho acaba desafiando dois dogmas. Até hoje, acreditava-se que a formação de novos neurônios num animal ou humano adulto era um processo que dependia de algumas células em estado ainda pouco especializado, as chamadas progenitoras neurais. Um neurônio que já tivesse estabelecido conexões com outras células nervosas teoricamente seria incapaz de tal feito por definição. Além disso, os tumores normalmente são considerados o fruto de células pouco especializadas, ou “indiferenciadas”, como se costuma dizer. Nesse caso, porém, é uma célula especializada que está fazendo o estrago. As descobertas podem tanto ajudar a entender de forma mais clara a biologia do câncer quanto, com alguma sorte, trazer pistas sobre como regenerar o próprio sistema nervoso. Martins, que atualmente faz seu pós-doutorado no Hospital de Pesquisa Pediátrica St. Jude, nos Estados Unidos, está investigando as raízes genéticas do retinoblastoma, um câncer de retina que afeta principalmente crianças. “Praticamente a única alternativa de tratamento hoje é retirar o olho de uma criança de meses de idade. Quando acontecem metástases [o espalhamento do câncer para outros órgãos], a chance de sobrevivência diminui drasticamente”, conta o pesquisador. Acontece que a retina, além de ser afetada por esse câncer terrível, é um dos melhores tecidos para o estudo da diferenciação celular, o processo que faz as células saírem de uma versão “genérica” para uma forma altamente especializada em determinada função. A retina é altamente organizada, possuindo vários tipos de célula em proporções diferentes e específicas, que vão de 80% para algumas células a meros 0,5% no caso de outras. Essa variedade toda depende, em grande medida, da capacidade das células de deixarem de se multiplicar no momento certo e assumirem funções definidas. Bagunças nesse ritmo preciso estão entre as receitas do câncer. É o que parece acontecer no retinoblastoma, que está relacionado à inativação de um gene, o Rb, assim batizado por causa desse tipo de câncer. A desativação do Rb desencadeia, por sua vez, alterações no funcionamento de vários outros genes. Foi estudando esse efeito dominó que o biólogo brasileiro e outro pós-doutorando do Hospital St. Jude, Itsuki Ajioka, deram de cara com os neurônios que não queriam crescer.
Adultos precoces
Em camundongos, Ajioka desativou uma das duas cópias do gene p107, ligado à via de funcionamento do Rb. Foi aí que a equipe de pesquisa notou o aumento de um subtipo celular específico na retina dos bichos. Eram os chamados neurônios horizontais -- células que normalmente cessam sua multiplicação cedo. Já no formato adulto, elas migram, estendem prolongamentos na horizontal (daí seu nome) e passam a fazer a ponte entre os detectores de luz do olho e outros neurônios da retina. Acontece que roedores com 30 dias de vida experimentavam um surto de divisão celular desses neurônios. E eles faziam isso mantendo seus prolongamentos e sinapses (conexões com outras células nervosas), duas características de neurônios que não se dividem mais. No fim das contas, formavam retinoblastomas muito agressivos. Quais são as implicações disso? “A primeira é você ter de repensar a idéia de que um tumor tem necessariamente de ser uma célula com determinada morfologia, ou com determinado comportamento biológico”, afirma Martins. Conforme o mecanismo exato da “volta à infância” neuronal for sendo elucidado, formas mais inteligentes de tratar o retinoblastoma também podem surgir. O pesquisador mostra muita cautela em relação à possibilidade mais mirabolante: e se um efeito parecido, mas controlado, pudesse ser induzido em neurônios adultos de pessoas com doenças degenerativas, de forma que elas reconstruíssem suas próprias células nervosas? “Com certeza é uma extrapolação que, enquanto hipótese, é algo honesto de ser feito. Permite, por exemplo que você repense o que acontece na neurogênese [formação de neurônios] no sistema nervoso adulto. O conceito de um progenitor, de células que podem se dividir gerando outras células, talvez precise ser repensado”, pondera o biólogo.
O repórter Reinaldo José Lopes viajou a convite da Fesbe.
G1
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domingo, 14 de junho de 2009
segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
Suplementos não evitam câncer
O consumo de suplementos alimentares com vitaminas antioxidantes não reduz a incidência de casos de câncer nem a mortalidade pela doença, aponta estudo realizado pelo Brigham and Women's Hospital, dos EUA, e pela Harvard Medical School, e publicado em dezembro no "Journal of the National Cancer Institute".Os pesquisadores avaliaram os efeitos do consumo dos suplementos de betacaroteno, vitamina C e vitamina E em 7.627 mulheres com mais de 60 anos durante nove anos e meio. Nesse período, elas tomaram porções individuais ou combinadas dos suplementos e foram comparadas ao grupo de mulheres que recebeu placebos. No total, 624 mulheres desenvolveram cânceres invasivos e 176 morreram em consequência da doença. Comparadas com mulheres que tomaram placebo, o risco de desenvolver a doença foi quase idêntico nos dois grupos.Também foi verificada pouca diferença nos casos de morte. O risco aumentou 28% em mulheres que tomaram vitamina C, diminuiu 13% naquelas que tomaram vitamina E, e caiu 16% no grupo do betacaroteno. Segundo Jennifer Lin, uma das autoras do estudo, essa é a primeira pesquisa de grande porte que avalia os resultados do consumo de suplementos a longo prazo. "Muitos estudos testam os efeitos de antioxidantes na prevenção do câncer. Diferentemente da maioria, o nosso estudo avaliou o efeito combinado e individual de três substâncias durante quase dez anos", disse Lin à Folha. Os antioxidantes estão presentes naturalmente em vários alimentos, principalmente em frutas, legumes e verduras. É sabido que eles proporcionam uma proteção no ciclo celular porque neutralizam a ação dos radicais livres (moléculas produzidas pelo organismo que podem prejudicar a multiplicação celular e provocar câncer). Por isso, acreditava-se que o consumo de suplementos dessas substâncias teria o mesmo efeito proporcionado pela ingestão regular de frutas, legumes e verduras."Alguns estudos in vitro sugeriam que suplementos de antioxidantes teriam efeitos positivos na prevenção do câncer, mas a maioria dos testes clínicos não constatou isso", afirmou a pesquisadora.Segundo o oncologista Hakaru Tadokoro, da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), os resultados do estudo reforçam a tese de que a suplementação sozinha não é suficiente para prevenir a doença."Existem casos em que o consumo exagerado de suplementos pode até aumentar o risco. Por isso, o ideal é manter uma dieta rica em frutas, legumes e verduras, pois, além das vitaminas, eles têm outras substâncias benéficas para o organismo", diz.
Por
FERNANDA BASSETTE
RACHEL BOTELHO
Por
FERNANDA BASSETTE
RACHEL BOTELHO
quarta-feira, 17 de dezembro de 2008
Doenças Modernas
À medida que a sociedade avança, os desafios impostos para a saúde pública também evoluem. É o que se pode confirmar com o último perfil da mortalidade do brasileiro, divulgado pelo Ministério da Saúde. Ele traz boas e más notícias.Segundo o estudo, "doenças da modernidade" são as que mais matam no país. Já ficou para a história o período em que as moléstias infecciosas e parasitárias -tais como as diarréias, tuberculose e malária- eram o retrato da mortandade nacional. A urbanização e o desenvolvimento provocaram uma expansão das mortes por enfermidades crônicas e por causas externas.Os males do aparelho circulatório -associados a má alimentação, consumo excessivo de álcool, tabagismo e falta de atividade física- lideram o ranking (32,2%). Câncer é a segunda causa (16,7%), seguida de homicídios e acidentes de trânsito (14,5%). Depois, vêm as doenças do aparelho respiratório (11,1 %).Na conta das boas notícias, está uma relacionada às mulheres. Houve uma diminuição na incidência de câncer de colo de útero. Isso se deve a campanhas educativas e a exames preventivos mais disseminados. Em contrapartida, o câncer de mama avançou. A última Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), segundo os autores, comprova prática insuficiente de exames como mamografia.Os homens, por outro lado, são mais afetados pelas causas externas -homicídio e violência no trânsito- do que as mulheres. Embora as estatísticas demonstrem que há uma tendência de queda nos homicídios, o volume dessas mortes ainda se mantém em patamar elevado.Apesar dos avanços institucionais e econômicos verificados nas últimas décadas, 41,2% dos óbitos registrados no ano de 2005 ocorreram prematuramente, isto é, antes de a pessoa completar 60 anos de idade.À luz desses dados, o poder público está diante do desafio de viabilizar, além do atendimento preventivo, ambulatorial e hospitalar, uma infra-estrutura urbana que permita uma vida mais saudável. Além disso, o rápido envelhecimento da população logo produzirá impactos sobre o sistema de saúde.
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terça-feira, 11 de novembro de 2008
Doença circulatória é a que mais mata
Segundo dados do Ministério da Saúde, as principais causas de morte estão ligadas a má alimentação e sedentarismo. O câncer está em segundo lugar, seguido de homicídio e violência no trânsito; em 2005, 41,2% dos mortos tinham menos de 60 anos
LETÍCIA SANDER
Doenças do aparelho circulatório associadas à má alimentação, ao consumo excessivo de álcool, ao tabagismo e ao sedentarismo estão no topo do ranking das causas de morte no Brasil. O câncer aparece em segundo lugar, seguido de homicídio e violência no trânsito, de acordo com dados do Ministério da Saúde divulgados ontem.O retrato das principais causas de mortalidade mostra que derrames e infartos são os principais vilões da saúde para homens e mulheres. Em 2005, 10% do total dos óbitos no país ocorreram por causa de Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) e 9,4% devido a infartos.As altas taxas de mortes por doenças crônicas e causas violentas vêm sendo registradas desde a década de 1970. Antes, o que mais matava no Brasil eram as doenças infecciosas e parasitárias, como diarréia, tuberculose e malária. Na década de 1930, as doenças cardiovasculares respondiam por 12% das mortes nas capitais, contra 46% das doenças infecciosas.Hoje, os problemas no aparelho circulatório são responsáveis por 32,2% do total de mortes.De acordo com Otaliba Libânio, diretor do Departamento de Análises de Situação da Saúde do ministério, esse índice está ligado a hábitos pouco saudáveis, como consumo excessivo de gorduras, açúcares e sal, além de uso abusivo de bebidas alcoólicas e cigarro.Os números, incluídos no levantamento Saúde Brasil 2007, com base nas mortes ocorridas em 2005 e 2006, também mostram que a taxa de mortes prematuras (antes da terceira idade) é alta: em 2005, 41,2% dos mortos não tinham 60 anos.Segundo Libânio, o maior crescimento percentual em relação à pesquisa anterior, divulgada em 2007, foi registrado nos casos de câncer e de mortes violentas. "Observamos um aumento no peso da violência no conjunto das mortes. No Brasil ela é a terceira causa, mas em três regiões, a Centro-Oeste, a Norte e a Nordeste é a segunda causa de morte", afirmou.Embora as mulheres sejam maioria na população, os homens morrem mais, de acordo com o levantamento -o risco de morte da população masculina é 40% superior.Doenças isquêmicas do coração são a principal causa de morte dos homens, seguidas por doenças cerebrovasculares e homicídios. De 1980 a 2005, a proporção de mortes por câncer nos homens aumentou 76%, por causas violentas, 41%, e por transtornos mentais, 225% - neste caso, o alcoolismo é o principal responsável.Entre as mulheres em idade fértil ( 10 a 49 anos), o câncer foi responsável pela maior quantidade de mortes em 2005, alcançando uma taxa de 23% (era 20,7% em 2000), superando as doenças circulatórias.No ranking das causas de morte para mulheres em geral, o câncer de mama ocupa a nona posição. "Há alguns anos, o câncer de colo de útero era a principal causa de morte. Isso indica que o ministério deve insistir em políticas de rastreamento", afirmou Libânio.PrevençãoPara Rui Ramos, cardiologista e diretor de promoção de saúde vascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia, um dos fatores que ajudam a explicar por que as doenças circulatórias lideram as causas de mortes no Brasil é o fato de a população estar envelhecendo e se alimentando mal. Segundo ele, idade e colesterol são fatores de risco importantes."Para diminuir o risco de eventos circulatórios, como infartos e derrames, deve-se evitar o colesterol com uma dieta saudável, tratar a pressão alta, deixar de lado o cigarro e fazer atividade física", afirma.Segundo o médico, pessoas com doenças circulatórias acabam tendo complicações porque só procuram tratamento depois que algo grave acontece.
LETÍCIA SANDER
Doenças do aparelho circulatório associadas à má alimentação, ao consumo excessivo de álcool, ao tabagismo e ao sedentarismo estão no topo do ranking das causas de morte no Brasil. O câncer aparece em segundo lugar, seguido de homicídio e violência no trânsito, de acordo com dados do Ministério da Saúde divulgados ontem.O retrato das principais causas de mortalidade mostra que derrames e infartos são os principais vilões da saúde para homens e mulheres. Em 2005, 10% do total dos óbitos no país ocorreram por causa de Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) e 9,4% devido a infartos.As altas taxas de mortes por doenças crônicas e causas violentas vêm sendo registradas desde a década de 1970. Antes, o que mais matava no Brasil eram as doenças infecciosas e parasitárias, como diarréia, tuberculose e malária. Na década de 1930, as doenças cardiovasculares respondiam por 12% das mortes nas capitais, contra 46% das doenças infecciosas.Hoje, os problemas no aparelho circulatório são responsáveis por 32,2% do total de mortes.De acordo com Otaliba Libânio, diretor do Departamento de Análises de Situação da Saúde do ministério, esse índice está ligado a hábitos pouco saudáveis, como consumo excessivo de gorduras, açúcares e sal, além de uso abusivo de bebidas alcoólicas e cigarro.Os números, incluídos no levantamento Saúde Brasil 2007, com base nas mortes ocorridas em 2005 e 2006, também mostram que a taxa de mortes prematuras (antes da terceira idade) é alta: em 2005, 41,2% dos mortos não tinham 60 anos.Segundo Libânio, o maior crescimento percentual em relação à pesquisa anterior, divulgada em 2007, foi registrado nos casos de câncer e de mortes violentas. "Observamos um aumento no peso da violência no conjunto das mortes. No Brasil ela é a terceira causa, mas em três regiões, a Centro-Oeste, a Norte e a Nordeste é a segunda causa de morte", afirmou.Embora as mulheres sejam maioria na população, os homens morrem mais, de acordo com o levantamento -o risco de morte da população masculina é 40% superior.Doenças isquêmicas do coração são a principal causa de morte dos homens, seguidas por doenças cerebrovasculares e homicídios. De 1980 a 2005, a proporção de mortes por câncer nos homens aumentou 76%, por causas violentas, 41%, e por transtornos mentais, 225% - neste caso, o alcoolismo é o principal responsável.Entre as mulheres em idade fértil ( 10 a 49 anos), o câncer foi responsável pela maior quantidade de mortes em 2005, alcançando uma taxa de 23% (era 20,7% em 2000), superando as doenças circulatórias.No ranking das causas de morte para mulheres em geral, o câncer de mama ocupa a nona posição. "Há alguns anos, o câncer de colo de útero era a principal causa de morte. Isso indica que o ministério deve insistir em políticas de rastreamento", afirmou Libânio.PrevençãoPara Rui Ramos, cardiologista e diretor de promoção de saúde vascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia, um dos fatores que ajudam a explicar por que as doenças circulatórias lideram as causas de mortes no Brasil é o fato de a população estar envelhecendo e se alimentando mal. Segundo ele, idade e colesterol são fatores de risco importantes."Para diminuir o risco de eventos circulatórios, como infartos e derrames, deve-se evitar o colesterol com uma dieta saudável, tratar a pressão alta, deixar de lado o cigarro e fazer atividade física", afirma.Segundo o médico, pessoas com doenças circulatórias acabam tendo complicações porque só procuram tratamento depois que algo grave acontece.
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